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  • Vida Económica
  • 12 de Dezembro, 2025

Entrevista João Marques

Entrevista João Marques

João Marques, em entrevista destaca que desde há alguns meses o setor da construção está a atravessar uma ‘tempestade perfeita’: existem cada vez menos pessoas na indústria, com menos capacidade e experiência, ao mesmo tempo que existem cada vez mais projetos, com maior complexidade, requinte e desafios.

Que razões estiveram na origem da criação da Huître em 2023?
A criação da Huître nasce da necessidade pessoal de concluir um projeto iniciado no ano 2000. Este projeto começou com a criação de uma pequena empresa que cresceu rapidamente e se tornou uma referência no nosso pequeno nicho no mercado da construção de interiores. Posteriormente, com a venda dessa empresa a uma multinacional, ajudei a fazer crescer uma equipa e um negócio que permitiram que Portugal surgisse como uma referência quando comparado com outros países e, muitos anos depois, pela minha saída dessa mesma empresa.
Após um período de reflexão, entendi que esse projeto poderia ser realizado de forma diferente, mais próxima das pessoas — sejam elas clientes, fornecedores, equipa ou parceiros. Neste novo projeto, procurei ‘importar’ a experiência vivida, juntando as melhores práticas de ter total autonomia para criar tudo desde o zero, conjugadas com a realidade completamente oposta de trabalhar numa multinacional com uma megaestrutura que, por vezes, retira agilidade e autonomia para reagirmos rapidamente às necessidades dos stakeholders. Foi também uma oportunidade para reforçar os nossos valores, garantindo que cada projeto reflete a nossa singularidade e exclusividade, sempre com foco nas pessoas e na colaboração.
A nossa mensagem inicial para o mercado foi que nascera uma empresa com mais de 20 anos de experiência — uma verdade na qual o próprio mercado acreditou. E hoje, quase 3 anos após o nosso início, continuamos muito jovens, mas sentimos que somos jovens muito experientes! Temos muito orgulho em partilhar que fizemos, em menos de 3 anos, o que, na etapa anterior, demorámos mais de 5 anos a alcançar.

Quais as mais-valias que apresenta a equipa?
Em primeiro lugar, considero importante destacar que já somos mais de 70 pessoas (técnicos e suporte). Quero acreditar que a experiência dos profissionais mais seniores, que me acompanham há muitos anos, será uma mais-valia para os mais jovens que queiram aprender a executar projetos de uma forma muito própria. Acreditamos que o desenvolvimento das pessoas e a colaboração entre todos são essenciais para o crescimento sustentado do nosso negócio. Crescer um negócio baseado em serviços prestados por pessoas — que, ao mesmo tempo, têm de fazer crescer o próprio negócio e formar outras pessoas — não tem sido, não é e nunca será uma tarefa fácil. Mas, se os “alunos” quiserem muito e os “professores” também, o caminho torna-se certamente mais simples. A nossa principal mais-valia tem sido apresentar um serviço com um ‘selo de garantia’: compromisso, honestidade, rapidez na identificação das dificuldades e transparência na sua exposição, para que, em conjunto, se encontrem soluções. E, muito importante: saber escutar, saber pensar e saber onde atuar, com que meios e com a urgência que cada situação exige. Temos uma equipa extraordinariamente comprometida, dedicada, resiliente, que veste a camisola e sabe que tem a nossa promessa de transformar essa resiliência em orgulho e satisfação, ao vermos sorrisos à nossa volta.

Quais as razões para a especialização em projetos de gama alta e tendências do mercado de luxo?
Essa questão deve ser respondida com responsabilidade e total honestidade. É verdade que, ao longo do meu percurso profissional, passaram pelas minhas mãos quase todas as lojas de marcas de luxo em Lisboa, Porto e Algarve. No entanto, quando me pergunta quais as razões que nos levaram a especializar-nos nesse tipo de projetos, a resposta é simples: essa especialização nunca foi uma estratégia pessoal ou profissional. O que aconteceu foi que a forma como sempre tratámos clientes, fornecedores e equipa — independentemente do tipo de projeto — foi aplicada ocasionalmente a um primeiro projeto de luxo. A partir daí, Portugal é um mercado pequeno, onde tudo se difunde rapidamente. Tenho muito orgulho em dizer que os nossos comerciais (que não temos) são os nossos clientes, os arquitetos que nos conhecem e os gestores de projeto que nos recomendam. Quanto às tendências e boas práticas, sabemos que Lisboa e Portugal continuarão a ser mercados muito importantes, com várias marcas e projetos identificados para os próximos dois anos. No que toca às boas práticas, tudo passa por comunicação clara no momento certo e por uma procura obsessiva de soluções que satisfaçam todas as partes, dentro dos padrões estabelecidos.
O nosso maior objetivo é garantir que cada projeto apresenta singularidade e exclusividade, refletindo excelência e qualidade em cada detalhe. Naturalmente, procuramos rodear-nos dos melhores, mas isso não basta. O maior luxo é a capacidade de resolver os desafios diários que cada projeto apresenta. É nesta entrega, fiabilidade e confiança que reforçamos a nossa proposta de valor.

Quais os desafios de conciliar engenharia e design?
Nestes projetos — maioritariamente internacionais — as marcas já têm conceitos globais pré-estabelecidos, com arquitetos internacionais. Normalmente, procuram equipas locais que verifiquem as regras de cada país, tratem do licenciamento e produzam localmente os projetos de engenharia.
O desafio surge na fase de obra, quando já existe contrato assinado com o cliente. Muitas vezes, devido ao pouco tempo disponível, quem aluga ou compra o espaço quer iniciar o projeto “ontem”. Isso gera erros de compatibilização entre projetos, que têm de ser resolvidos “online”, com os prazos a contar e os budgets já definidos.

O que pensa sobre o setor da construção e desafios atuais?
Digo há alguns meses que estamos a atravessar uma ‘tempestade perfeita’: existem cada vez menos pessoas na indústria, com menos capacidade e experiência, ao mesmo tempo que existem cada vez mais projetos, com maior complexidade, requinte e desafios.
Essa menor capacidade resulta do desaparecimento dos profissionais mais antigos em áreas específicas — carpintaria, pintura, construção civil, canalização — onde sentimos maiores dificuldades. Os que ainda estão ativos e fazem a diferença estão sobrecarregados, sem tempo para ensinar. Ensinar deveria ser uma obrigação, mas exige tempo… que não existe.
Consequentemente, os preços tornam-se menos competitivos: se os bons profissionais são poucos e não chegam para a procura, os preços sobem. A solução? Formar, formar e formar. Mas é necessário tempo para formar. A formação colaborativa é fundamental para garantir confiança, fiabilidade e excelência.
Acredito que a tecnologia será a solução — talvez não na minha geração — mas vai acontecer. A dúvida reside em encontrar tecnologia que consiga manter ou aumentar a diversidade e criatividade dos arquitetos e das suas ideias.

O país está a tomar as medidas corretas para atrair e reter talento?
Na minha perceção, não. Escutamos que mercados como França e Alemanha estão em crise, ao contrário da nossa realidade atual. Ora, nesses países há muitos emigrantes que partiram em busca de oportunidades… talvez esteja na altura de regressarem. Existe muito trabalho em Portugal para quem queira viver perto de casa, num país excelente, com pessoas extraordinárias e um clima privilegiado.
Mas vejo poucas pessoas a discutir este problema real e relevante para a economia. Valorizar as pessoas e criar condições de colaboração são essenciais para atrair talento. Acredito que, atualmente, a relação entre custos e rendimentos torna Portugal mais competitivo do que muitos mercados onde os nossos emigrantes vivem. Criar confiança, fiabilidade e excelência no setor é crucial para garantir competitividade.

Qual é o crescimento e as perspetivas para o futuro da Huître?
Quando decidi avançar com este projeto, elaborei um business plan para os primeiros 5 anos — ligeiramente agressivo — para demonstrar à equipa o seu potencial. Hoje, tenho orgulho em dizer que, nos primeiros 3 anos, já ultrapassámos os números ambiciosos definidos para o 5.º ano.
Mas o que mais me orgulha é que esta equipa tem realizado verdadeiros milagres. Apesar dos desafios, temos mantido clientes satisfeitos, cumprido a missão de entregar projetos de qualidade superior e promovido um espírito de equipa orientado para a perfeição e para a valorização de todos à nossa volta.
O futuro imediato passa por consolidar e não crescer. Queremos crescer em qualidade e não em quantidade. Já temos garantido, para o próximo ano, quase o volume deste ano; por isso, o foco será fortalecer a equipa e a rede de fornecedores, aumentando a fiabilidade dos compromissos. Continuaremos a reforçar estes valores como base de toda a nossa atuação.